Eduardo Lourenço (1923-2020)

Eduardo Lourenço (1923-2020)

Eduardo Lourenço deixou-nos no dia 1 de dezembro. Ninguém melhor que ele conseguiu conferir à cultura de um pequeno país europeu periférico como Portugal uma dimensão universal. Ao contrário de outros, nunca caiu na mitificação das glórias passadas, pois o modo como projetou o país e as suas gentes no mundo centrou-se sempre numa perspetiva crítica, a que se acrescentava uma fina ironia. Mas não se limitou a pensar e a refletir sobre o país, já que este apenas poderia existir verdadeiramente não como ‘orgulhosamente só’, mas no contexto da sua relação com o Outro, particularmente com a Europa. O velho continente foi outro dos temas recorrentes da sua vasta reflexão, sublinhando a sua unidade cultural baseada na diversidade, o que o distingue dos EUA, nação a que dedicou também perspicazes considerações.
Menos conhecida foi a sua atividade na revista de reflexão e crítica Finisterra. Tendo origem num colóquio organizado em 27 de maio de 1988 pelo Gabinete de Estudos do Partido Socialista e pela Fundação Friedrich Ebert, esta revista foi fundada por Eduardo Lourenço que se tornou a sua principal referência intelectual, propondo como tema do seu primeiro número, publicado em 1989, “O Socialismo do Futuro”. Mais de 30 anos depois foram publicados 88 números, fenómeno inédito em Portugal, mantendo-se, desde o início, apesar de alguns atrasos inevitáveis em revistas deste tipo, uma certa regularidade de publicação.
Falar da Finisterra, de que sou coordenador e onde tive o enorme gosto de conviver com ele e tornar-me seu amigo, é falar de uma publicação que sempre teve como horizonte a reflexão e a crítica sobre as questões económicas, sociais, políticas e culturais da atualidade, uma janela para o mundo, como era do seu gosto. Revista pluralista, uma exigência de Eduardo Lourenço, situada na área do socialismo democrático, a Finisterra está indissociavelmente ligada à sua figura e aos seus magníficos editoriais, geralmente pequenos textos que introduziam o tema central de cada número e definiam o seu sentido: Finisterra, revista de reflexão e crítica. Apesar de já ter partido, Eduardo Lourenço será sempre recordado como a fonte de uma das mais extraordinárias aventuras editoriais deste país. A Finisterra, que lhe sobreviveu, será talvez um dos mais vivos testemunhos de que o grande autor sobrevive sempre à sua obra.

Joaquim Jorge Veiguinha

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